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Livro "Detrás da Sombra" Em Ebook

sexta-feira, 22 de maio de 2009

.O preço da mentira

Vejo os sorrisos vagos,
O gesto próprio dos fracos,
Enquanto murmuram que a guerra acabou.

Ouço a tremura na voz,
Enquanto conversam a sós,
E desfrutam do pão que o Diabo amassou.

Enumero mentira por mentira,
Nas falas mansas do dia a dia
E nos olhares vestidos de cobardia
Daqueles que pensam tudo menos o que dizem.

Conto pecado a pecado,
Enquanto se esvaziam os pratos
E se quebram os votos de honestidade
Como sendo a verdade heresia.

A guerra não acabou!
Não é finita, como se anuncia!
Grassa nas mentalidades,
Alimenta-se das falsidades
Que desde o almoço à liturgia,
Celebram a pequenez da humanidade!

A verdade, a verdade!
Coisa maldita que tantos invocam!
Poucos saberão o que ela implica,
Na sua rotineira insabedoria
E na ignorância que os abençoa
A cada gargalhada estridente!

"Ha! Ha! Ha!" - Detritos de gente!
Que se reclude em casas sem tecto,
Pensamentos sem nexo,
E escondem a carapaça
Com a cabeça a descoberto!

Mas quem está certo?
Quem é juiz?
Os honestos trabalhadores,
A vizinha Maria das dores,
Ou a mera meretriz?
Quem protege a veracidade
De cada palavra que diz?

Num mundo em que as sombras são a luz,
A noite é maior que o dia,
E a existência é uma freguesia
Sem moradores de permanente estadia,
Qual a ponte entre o real e a utopia?
Qual o elo entre a verdade e a vida?

Oh, que me tirem daqui!
Protejam-me de mim!
Pois tudo isto digo em vão,
Num esforço para alcançar o vento
E calar esta inquietação.

(Poema contido na obra Detrás da Sombra)

quarta-feira, 20 de maio de 2009

.Súplica Tardia

É como se não mais estivesse aqui
Sim, na neblina eu desapareci
Perdido na incerteza de palavras não ditas,
De verdades malditas, e de olhares piedosos
Que atestam a secura dos meus lábios,
Oh, tristes lábios.

É como se já não fosse completo;
A minha alma é um deserto.
Esquecida entre promessas de mudança,
Suspiros sem esperança, e lágrimas
Que cobram o meu sangue,
Oh, doce sangue.

Mas eu estou aqui
Ninguém me vê, mas nunca parti
Que o solo comprove a minha fúria,
Os céus, os meus clamores,
E o mar, as dores que tentei afogar
Aos meus pés.

Eu estou aqui, eu estou aqui
Entre escombros daquilo que vivi
Por entre sussurros de escarnecer,
Ódio e desconfiança;
Lá se foi a bonança, junto com
A vontade de viver.

No fio da navalha,
No gume da espada,
À beira do abismo;
Apenas o vejo porque o sinto!

Consumido pelo fogo,
Gelado pela frieza,
Cegado pela clareza
Da realidade... ou do absinto.

Eu estou aqui, eu estou aqui
Mas a mim mesmo perdi
Quando fiz com que me perdessem a mim.

(Poema contido na obra Detrás da Sombra)

domingo, 10 de maio de 2009

.Dúvidas do ser

Diria que é por instinto,
Ou acusaria a vontade.
Qual deles a verdade?
Qual deles é o que sinto?

No berçário das ideias,
Na nebulosa do pensar,
É o vento que, ao soprar,
Me diz o que a alma anseia.

E a verdade é uma só,
Infinitamente singular:
A vontade surge por instinto.

E as duas dão o nó,
E me enlaçam em pesar
Por assim se esvaziar a lua cheia.

(Poema contido na obra Detrás da Sombra e musicado por Joel Costa, Carolina Segundo e Diogo Pinto)

.Ultimato

Que se cale a Primavera!
Que desapareçam as flores!
Que adormeça a minha espera
Por um mundo sem cores!

Chega o negro do meu luto!
Basta o vermelho do meu furor!
Que morra de vez o defunto!
Que se cale a minha dor!

Desapareçam, memórias!
Desvaneçam, visões!
Rejeito as tuas glórias
Se as guardas em caixões!

Que se cale a tua voz!
Que rebente a minha cabeça!
Se até na morte me roubas a vida,
Que também ela anoiteça!

Que cessem os sonhos
Se eu tiver que te rever!
Que sufoque esta angústia
Que se cale o amanhecer!

Sucumbe, ó Primavera!
Escurece, ó lírio!
Que acabe a minha espera...
Que se cale este martírio.

(Poema contido na obra Detrás da Sombra)

sexta-feira, 8 de maio de 2009

.Fui

Fui leito de rios
E rir não consegui.

Fui escravo de sorrisos
E sorrir não pude.

Fui braço direito
E o esquerdo perdi.

Fui mais que perfeito;
Que o futuro mude.

Fui tudo aquilo que não foste para mim
E estou aqui.

Fui a água que bebeste na secura da aflição
E sobrevivi.

Fui consolo quando choraste em segredo
E eu bem vi
Quando o espelho das tuas lágrimas
Só te reflectia a ti.

Fui tudo e sobretudo fui eu que consegui
Que tudo aquilo que tinha se tornasse o que perdi
Quando o som do meu secreto meditar
Se perdeu por entre a tua súplica vulgar.

(Poema contido na obra Detrás da Sombra)

.Poço

De olhares foram feitas as medidas do poço,
Em segredos se mergulhou a água.
Pedra sobre pedra se construiu.
Pedra por pedra ele partiu.

O húmido estremecer sufocava o medo,
Calava-se a ânsia pelo ar.
Tempo a tempo se revelou.
Todo o tempo ele procurou.

O ouro rebrilhava na secreta noite,
O dourado sangrava do olhar.
Por ganância a matança sagrou.
Por ganância ele expirou.

No fundo do poço.
Ainda lá estou.

(Poema contido na obra Detrás da Sombra)

.Dormente

De olhos bem fechados.
De lábios calados à verdade.
Dormente… Por fim, dormente.
Ao som do bater da chuva.
Ao ritmo do placebo.
Aqui. Eu estou aqui.
Encontra-me.
Acorda-me.
Ama-me.
Eu espero.
De olhos bem fechados.
De lábios calados à verdade sobre ti.
Dormente… Desde que te vi.

(Poema contido na obra Detrás da Sombra)