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Livro "Detrás da Sombra" Em Ebook

sexta-feira, 17 de abril de 2009

.Maré

Olímpica maré,
Inunda a fonte do teu degredo,
Inibe a luz do teu medo,
Também meu em segredo;

Erode a terra que te sugou,
Comanda a Lua que te humilhou,
Mesmo quando se apagou;

Rasga o esboço do Iluminador,
Ondula nos escombros do furor,
Do teu insensível despudor;

Afunda aqueles que te pisam,
Destrói os ventos que te assobiam,
As fronteiras que te limitam;

Esquece o solo, pois és mar;
Entre Zeus e Deus, és ímpar,
Maré luzente ao luar;

De poderosa força é o teu mal,
O teu inquieto brilho é fatal;
Serás tu, maré, real?

(Poema contido na obra Detrás da Sombra)

sábado, 11 de abril de 2009

.Corredor da Morte

Andava pela estrada, passos sincopados e fúnebres. O silêncio enfurecido desenhava-lhe rugas nos lábios cerrados. Continha a custo o grito que lhe ressoava na mente, mas ter como única resposta o eco repetitivo da sua voz doía-lhe mais do que olhar em volta e descobrir a vastidão do vazio que sentia. Ninguém diante de si, ninguém ao seu lado ou atrás, pedindo-lhe para recuar, para esquecer a mágoa acesa que lhe sussurrava blasfémias. Apenas ela e a estrada, apenas o negro do alcatrão e o vermelho da sua camisa ensanguentada, com pingos de culpa manchando-lhe a consciência e as mãos que no passado controlava. E o silêncio… Não se atreveu a quebrá-lo.

(Poema contido na obra Detrás da Sombra)

domingo, 5 de abril de 2009

.Descontrolo

Adormecidos sentidos
Pecados cometidos
Murmúrios inconscientes
Memórias dormentes

Sorrisos vazios
Abafados desvios
Consciências ausentes
Sombras crescentes

Razões dispersas
Acções adversas
Segredos em ilusão
Lágrimas sem coração

Adormecidos sentidos
Pecados esquecidos
Confissões pendentes
Mágoas suplentes

(Poema contido na obra Detrás da Sombra)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

.A Paz

Dir-te-ei que sim,
Quando me pedires "não",
E na prolongada noite
Que se afoga no horizonte
Vires reflectida a mão
Que em ti tocará.

Dar-te-ei os mares,
Quando tocares o chão,
E na delicada beleza
Escondida na Natureza,
Vires florescer a paixão
Que perdurará.

Derreterei o real,
Quando me pedires ilusão,
E à luz da ignorância,
De falsa irrelevância,
Vires nascer a verdade,
Que em ti brilhará.

Dar-te-ei o céu,
Quando procurares a razão,
E no sorrir dos teus lábios,
Contraídos, mandatários
Vires surgir as asas
Com que a paz voará.

(Poema contido na obra Detrás da Sombra e musicado por Joel Costa, Carolina Segundo e Diogo Pinto)

.Laços

Pendentes, inconstantes;
Perdidos num espaço que os ignora,
No tempo que voa parado,
Sem asas de salvação.
Laços... Maldição.

Urgentes, clamantes;
Holográficos pedaços de viver,
Que a memória não esquece,
Mas a visão não alcança.
Laços... Desconfiança.

Crescentes, gritantes;
Poderosa força invisível,
Dominadora do Homem,
Pecadora de origem.
Laços... Vertigem.

Cruéis, farsantes;
Delírios da mente inconstante,
Sombras de paixão,
Ou mágoa que perdura.
Laços... Tortura.

(Poema contido na obra Detrás da Sombra)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

.Ausência

Pedaços de maré lavam os meus pés,
Lágrimas do céu escorrem em mim,
Mas não te sinto aqui.

O sopro da ventania me arrasta,
A areia mais que corta, desgasta,
Mas não te sinto aqui.

A tempestade cresce em esplendor,
Negra a noite, negro seu vigor,
Mas não te sinto aqui.

O trovão dá luz ao meu pecado,
O seu som é o meu grito abafado,
Mas não te sinto aqui.

A espera já não tem compasso,
A circunferência é o meu laço,
Mas não te sinto aqui.

O som do silêncio ensurdece,
A noite se prolonga, e arrefece
... Porque tu não estás aqui.

(Poema contido na obra Detrás da Sombra)

domingo, 1 de fevereiro de 2009

.Segredos da Noite

Um sentimento carnal,
De medo ou fachada.
Mal amada morte que espera por mim.

Um arrepio banal,
Ou ilusão plantada.
Inculcada dúvida pelo porvir.

Um gesto que sorri,
Uma mão fechada.
Passadas que violam o solo do qual vim.

Um olhar em falso,
Um toque de fracasso.
Corpo contra a mente, luta sem fim.

Um braço erguido,
Cinco dedos vibrantes.
Um punhal sedento do coração de Caim.

Um penetrar falhado,
Um pavor inesperado.
Misericórdia de um deus que esqueci?

Um anoitecer já ido,
Um ensolarar destemido,
Perdido punhal num abismo que não vi.

Um semblante lacrimejado,
Espírito que amanheceu chocado,
Suicidado o desejo de se matar, a si.

(Poema contido na obra Detrás da Sombra)